Exato um ano depois da denúncia feita pelo Tribuna de que a prefeitura de Ribeirão Preto pretendia comprar produtos hortifrutigranjeiros para a merenda e assistência social, por preços muito acima dos valores praticados no atacado, a situação se repete. Desta vez, o abacate, destaque da primeira matéria, aparece R$ 11 mais barato por quilo na mesma época do ano, mas há outros vilões da suspeita de sobrepreço.
Comparando os valores referenciais, aceitos no edital da licitação, com a tabela de preços da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), nesta sexta-feira, 3, há diferenças que chegam a mais de 300%. É o caso do mamão formosa. Enquanto na central de atacado a fruta pode ser comprada por R$ 2,92 o quilo, a prefeitura colocou como preço aceito na licitação R$ 8,91, o que pode representar até 305% a mais.
Essa porcentagem é 10 vezes maior do que os 30% que foram apresentados como margem “extra” aceita na licitação, considerando que há custos para os fornecedores com impostos e logística de entrega em diversos locais, além de variações da sazonalidade. Como a intenção da compra é adquirir 53 toneladas do mamão formosa em 12 meses – a partir do registro de preço (fixo) – caso os preços sejam confirmados no contrato nessas cifras, a diferença chega a R$ 317 mil de prejuízo para os cofres públicos, apenas neste item.
Em outra qualidade de mamão, o Havai Tipo “C”, o preço da Ceagesp é R$ 4,95 o quilo, enquanto o da prefeitura é R$ 7,90 o quilo, ou 159% a mais. Na compra programada de 30 mil quilos, o sobrepreço pode chegar a R$ 88 mil reais. Só nos dois tipos de mamão, o preço mais caro soma R$ 405 mil, considerando preços médios de mercado. Dependendo da negociação entre os fornecedores, há ainda preços mínimos que podem ser menores na Ceagesp.
Mais sobrepreço – Essa licitação vai investir R$ 5,7 milhões na compra de 51 tipos de produtos hortifrutigranjeiros para as secretarias da Educação e Assistência Social, podendo ainda haver diferenças em outras frutas, verduras e legumes. É o que acontece com a vagem, mais um exemplo de valor acima até mesmo daqueles encontrados no supermercado. Enquanto a Ceagesp dá como preço médio referencial R$ 7,86 o quilo, o edital aponta como valor aceitável até R$ 12,96 o quilo, ou 164% a mais.
Caso não haja revisão no edital, a prefeitura pretende abrir os envelopes de empresas interessadas no próximo dia 15 de junho. No ano passado, depois que a reportagem fez a denúncia e vereadores levaram o caso para ser investigado no Ministério Público, o valor de alguns itens caiu. O abacate, inicialmente aceito por até R$ 14,90 o quilo, acabou sendo efetivamente comprado por R$ 6, menos da metade.
O MPF também investiga suspeita de sobrepreço na compra de carnes para a merenda, licitação de 2016 que acabou tendo itens sob investigação cancelados pela própria prefeitura. Nos dois casos, as diferenças ofertadas no leilão presencial foram muito pequenas e, em quase todos os itens, acabou prevalecendo o preço mais próximo do teto permitido.
Em nota, a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) da prefeitura informou que “todos os processos licitatórios seguem os princípios que regem a Administração Pública. Ressalta que o referido registro de preços usa como referência a tabela Ceagesp”.
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