Munido de dois revólveres, um par de algemas e anotações em papéis avulsos, o pequeno empresário Marcelo Vargas, 27 anos, cometeu na tarde do dia 9 de março um ato extremo, que teve como efeito colateral a exposição de duas faces da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan).
Uma é a Corsan dos gabinetes – localizada no 18º andar de um prédio da Rua Caldas Júnior – que naquele dia 9 comemorava o lucro recorde de R$ 211,9 milhões. A outra é a Corsan forjada em negociatas de varejo pulverizadas pelo Estado. Mais do que um desatino, o episódio de Vargas é o ápice da cultura do descontrole arraigada na estatal.
Ao menos 40% do lucro obtido partiu do saneamento de irregularidades e de maus hábitos de gestão, calculam os atuais administradores. Naquela tarde, Vargas, acompanhado da sobrinha Fátima Feles, 22 anos, fez reféns o diretor-presidente da Corsan, Mário Freitas, e dois auditores. O empresário alegou ter agido por desespero, pressionado por um agiota. Dono da Transconstruserra e da Top Vargas – que empregam 60 pessoas e prestam serviços de limpeza e obras para a Corsan –, Vargas cobrava R$ 183 mil da companhia. Desse valor, R$ 60 mil seriam por obras de construção civil e R$ 123 mil por serviços de limpeza.
Vargas habita o mundo dos chamados terceirizados, onde é comum que pequenas empresas sejam montadas para prestar serviços à estatal. Nesse ambiente, descrito por um diretor da Corsan como “inóspito”, fornecedores são chamados sem licitação sob a desculpa da emergencialidade e cobram preços superfaturados. Um gerente que transitou por anos nesse mundo explica como funcionava a lei na Corsan:
– Se o pagamento atrasa, o prestador de serviço entra na sala de um dos chefes e fecha o tempo.
Confrontado, Vargas lembrou que “sempre foi assim”
Por mais acirrada que seja a discussão, os acertos ficam entre quatro paredes, já que ambas as partes estariam comprometidas com algum tipo de ilegalidade. Acreditando em um acordo, Vargas e Fátima invadiram armados a presidência da estatal.
Uma vistoria feita pela Corsan mostrou que a dívida de R$ 60 mil estaria superfaturada. Vargas teria direito a receber R$ 37 mil. Em relação ao outro débito, de R$ 123 mil, foi dito ao empresário que ele terá de buscá-lo junto à Marinonio Transportes Ltda, empresa terceirizada da Corsan e que já teria recebido pelo que realizou.
Respondendo pelo crime em liberdade, Vargas contou a Zero Hora:
– Mostrei a lista de obras que estavam no papel. Eles falaram que aquilo não valia nada. Tinha de ter a documentação do serviço feito. Retruquei que sempre tinha sido assim: trazíamos a lista e fazíamos a nota na hora.
Enquanto manteve os servidores da Corsan reféns, Vargas foi alertado por um diretor de que as coisas tinham mudado. Duas inspeções do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e uma sindicância na antiga Superintendência da Região do Vale do Sinos (Sursin), com sede em Canoas – para quem Vargas prestava serviço –, apontaram irregularidades que resultaram na demissão de cinco funcionários da estatal. Era lá o foco de um dos maiores esquemas de fraude desvendados. A descoberta fez com que 380 notas da unidade tivessem seu pagamento bloqueado, entre elas as de Vargas. Até sexta-feira, 333 haviam sido regularizadas, mas 47, que somam R$ 694 mil, continuavam pendentes.
Superfaturamentos viraram rotina
Se o que o TCE e a sindicância apontaram em Canoas ocorresse em todas as unidades da Corsan, em média 70% de tudo que a companhia paga por materiais e serviços seria resultado de superfaturamento, calcula o diretor administrativo e financeiro, Carlos Martinez. Em todo o Estado, o descontrole e falta de padronização nas contratações teriam feito com que a Corsan se acostumasse a pagar, em média, 40% a mais do que deveria pelas suas aquisições.
– Não podemos generalizar e dizer que tudo era má-fé. Sabemos que, na maioria das vezes, era até por uma certa ingenuidade. Mas era uma bagunça – admite Martinez.
O TCE levantou indícios de que antigos gestores da Sursin privilegiavam empresas que prestavam serviços e vendiam materiais a preços incompatíveis com os de mercado. Na página 7 do relatório número 47920200/08-3, os técnicos do TCE afirmam que 22 empresas fiscalizadas venderam R$ 12,1 milhões “sem licitação e sem termo de contrato” entre janeiro de 2003 e junho de 2008 à Corsan. As empresas foram selecionadas aleatoriamente.
Agora, com o caixa abarrotado, a Corsan está preocupada com os investimentos que fará, entre eles obras que somam R$ 1 bilhão de recursos próprios e do governo federal. Já Marcelo Vargas se define como um “sobrevivente”. Disse ter aprendido a duras penas que ninguém pode se manter prestando serviços para uma estatal como a Corsan sem ter aliados políticos que facilitem os trâmites dos negócios.
Filho de agricultores pobres, Vargas se mantém em silêncio. Diz que não é hora de acusar ninguém pelos seus problemas. Mas lamenta:
– A minha grande preocupação é saber o que o pessoal lá de Arroio do Tigre está pensado de mim.
22/03/2009
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